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Causos da MPB - Nordeste já!








Valendo-se ainda do filão engajado da pós-ditadura e aproveitando o sucesso do hit "We are the world", um grupo de cantores resolveram se unir e lançar um compacto simples (aquele disquinho que só cabem duas músicas, uma de cada lado) com o título de "Nordeste Já".

O grande motivo desse disco, além de dar voz ao feminismo crescente da época, era angariar fundos para a população carente e flagelados das chuvas no Nordeste, pois, no verão de 1985, houve uma inundação gigante naquela região do país. Vendido pela Caixa Econômica Federal, com renda destinada a uma região que, ao contrário do que sempre ocorreu (a seca), não penava pela falta d'água e, sim, pelo excesso dela.

Sendo assim, tanto "Chega de Mágoa" quanto "Seca D'água" foram finalizadas após composições coletivas. Porém, a última, veio de um poema do Mestre Patativa do Assaré - poeta e uma das principais figuras nordestinas do século XX. Participaram do compacto, entre outros, Alceu Valença, Alcione, Amelinha, Baby Consuelo, Belchior, Beth Carvalho, Caetano Veloso, Chico Buarque, Cláudio Nucci, Djavan, Ednardo, Edu Lobo, Eduardo Dusek, Elba Ramalho, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Erasmo Carlos, Fafá de Belém, Fagner, Fátima Guedes, Fernando Brant, Gal Costa, Geraldo Azevedo, Gilberto Gil, Golden Boys, Gonzaguinha, Guilherme Arantes, Ivan Lins, Joanna, João do Vale, Joyce, Kleiton & Kledir, Kid Abelha, Kid Vinil, Leoni, Léo Jaime, Luiz Gonzaga, Luiz Melodia, Lulu Santos, Maria Bethânia, Marina Lima, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Miúcha, Moraes Moreira, MPB-4, Nara Leão, Paulinho da Viola, Pepeu Gomes, Rita Lee, Roberto Carlos, Roberto Ribeiro, Roger, Sandra de Sá, Simone, Tânia Alves, Tavito, Tim Maia, Tom Jobim, Tunai, Wagner Tiso, Zé Ramalho e Zizi Possi.

O que a grande maioria dos compositores e artistas participantes do disco não contava era a crítica especializada pela incapacidade de harmonizar as vozes e o enquadramento de cada uma delas no coro. Pareceu até inveja dos excluídos, porque as músicas ficaram belíssimas. E quem tiver a oportunidade de escutá-las não irá se arrepender.

Segue a letra com os respectivos intérpretes de Chega de Mágoa:

Chega de Mágoa

(Milton Nascimento)
Nós não vamos nos dispersar
Juntos
É tão bom saber
Que passado o tormento
Será nosso esse chão

(Djavan)
Água, dona da vida
Ouve essa prece tão comovida

(Rita Lee)
Chega
Brinca na fonte
Desce do monte
Vem como amiga

(Coro)
Te quero água pra beber
Um copo d'água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero orvalho toda manhã

(Gal Costa)
Terra, olha essa terra
Raça valente, gente sofrida

(Gonzaguinha)
Chama

(Elba Ramalho)
Tem que ter feira

(Gonzaguinha)
Tem que ter festa

(Gonzaguinha & Elba Ramalho)
Vamos pra vida

(Chico Buarque)
Te quero terra pra plantar

(Chico Buarque & Fafá de Belém)
Te quero verde

(Caetano Veloso)
Te quero casa pra morar

(Caetano Veloso & Simone)
Te quero rede

(Paula Toller & Roger)
Depois da chuva o sol da manhã

(Maria Bethânia)
Chega de mágoa
Chega de tanto penar

(Coro)
Canto e o nosso canto
Joga no vento
Uma semente
Gente, olha essa gente

(Elizeth Cardoso)
Te quero água pra beber
Um copo d'água
Marola mansa da maré
Mulher amada

(Gilberto Gil)
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede

(Elizeth Cardoso)
Depois da chuva o sol da manhã

(Coro com Tim Maia no contracanto)
Canto e o nosso canto
Joga no tempo uma semente
Gente

(Roberto Carlos)
Quero te ver crescer bonita

(Coro)
Olha essa gente

(Erasmo Carlos)
Quero te ver crescer feliz

(Coro)
Olha essa gente

(Roberto Carlos & Erasmo Carlos)
Olha essa terra, olha essa gente

(Coro)
Olha essa gente

(Roberto Carlos)
Gente pra ser feliz, feliz

(Coro com Tim Maia no contracanto)
Te quero água pra beber
Um copo d'água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o sol da manhã

(Fagner)
Chega de mágoa
Chega de tanto penar

Causos da MPB - A feminina Rita


Aproveitando a "onda discoteque" dos anos 70, surgiu no Rio de Janeiro, em 1976, uma casa de show de arregaçar - a famosa Frenetic Dancin' Days. O sucesso foi tremendo a ponto de a Rede Globo promover uma novela com o mesmo nome.

As Frenéticas, grupo que embalava os convidados da boate sendo tanto as garçonetes quanto as animadoras de palco, eram Sandra Pêra (irmã de Marília Pêra), Regina Chaves, Nêga Dudu, Edir de Castro, Lidoka e Leiloca. Uma verdadeira animação no disputado espaço da noite carioca.

O produtor musical da casa era o músico Roberto de Carvalho, que então começava a namorar a roqueira Rita Lee e que fazia as músicas para que as Frenéticas se apresentassem ao público.

O público foi capturado por uma combinação inusitada de humor picante, erotismo nas roupas e nas letras das músicas, ritmo contagiante e uma performance esfuziante no palco. Porém, é de se lembrar que nesta época, o país vivia sob a mão dura dos generais e todas as letras de músicas deviam passar por análise do DOPS. E, ao depararem com uma letra de forte apelo erótico como em "Perigosa", Roberto de Carvalho e Nelson Motta (o idealizador da boate) sabiam que a música seria censurada.

Só que eles, conhecedores de músicas que são, também sabiam que não podiam modificar a letra, pois geraria uma quebra de tudo na melodia de "Perigosa", ainda mais com os gritinhos histéricos e gemidos sussurrantes da canção. Assim, entrou em cena Rita Lee, que por ali passava. Femininamente, propôs:

- Manda a letra "Eu vou fazer você ficar louco, muito louco" e tira o "Dentro de mim".

Sabedores de que mandar letra errada é o pior castigo, os dois bradaram:

- Mas não podemos omitir parte da letra!

- Mas quem disse que vão mandar errado? Só que, em vez de por o "Dentro de mim" no final, põe no início.

O que deveria ficar "Eu vou fazer você ficar louco, muito louco dentro de mim" (e que não passaria, ainda mais sendo cantada por mulheres) virou "Dentro de mim eu sei que eu sou bonita e gostosa". Um olhou pro outro e não tinham mais o que fazer, a não ser por Rita Lee, também, como compositora da melodia.


PERIGOSA
Roberto de Carvalho / Nelson Motta / Rita Lee

Eu sei que eu sou bonita e gostosa
E sei que você me olha e me quer
Eu sou uma fera de pele macia
Cuidado, garoto! Eu sou perigosa

Eu tenho um veneno no doce da boca
Eu tenho um demônio guardado no peito
Eu tenho uma faca no brilho dos olhos
Eu tenho uma louca dentro de mim

Eu posso te dar um pouco de fogo
Eu posso prender você, meu escravo
Eu faço você feliz e sem medo
Eu vou fazer você ficar louco
Muito louco
Muito louco
Dentro de mim



Danilo Meiras

Causos da MPB - Uma cor assim


Secos & Molhados foi uma banda além do seu tempo. Idealizada no fim dos anos sessenta e despontada no começo dos setenta, João Ricardo, Gerson Conrad e Ney Matogrosso deram à banda uma formação clássica e cheia de clássicos: "Sangue Latino", "O Vira" e "Rosa de Hiroshima" estão nas rádios até hoje. A capa de seu disco de estreia é reverenciada como melhor capa de todos os tempos no Brasil em estudo feito pelo jornal Folha de São Paulo.

Como todo grupo dos anos de chumbo, Secos & Molhados viveu sob a mão de ferro da ditadura. E, também, como quase todo artista daquela época, era contra a censura violenta dos generais brasileiros. Generais que mandavam matar e/ou torturar todos comunistas que encontravam no caminho. Ordem seguida ao pé-da-letra pela polícia e guardas que botavam a pátria nas pontas dos cassetetes.

Logo, João Ricardo, um português arretado e calejado da terra de Calabar, resolveu contar esta história colocando a comicidade de uma expressão popular brasileira, o "assim assado":

Um homem idoso caminha de madrugada e é encontrado pelo Guarda Belo (do Manda-Chuva) que identifica cor do velho e resolve matá-lo porque não acredita em tal cor. Ou seja, o Guarda Belo age de acordo com o status quo ("porque é preciso ser assim assado") e elimina um senhor que porta uma cor suspeita, que não é especificada, mas deduz-se que pode ser o vermelho, que simboliza o comunismo.

Com uma melodia peculiar, uma sonoridade riquíssima e um ritmo que não se enquadra em nenhum movimento, a música passou e a banda se divertia e nos divertia(diverte até hoje!) imensamente, assim assim.



ASSIM ASSADO

João Ricardo/Paulinho Mendonça



São duas horas da madrugada de um dia assim

Um velho anda de terno velho assim assim

Quando aparece o Guarda Belo



É posto em cena fazendo cena um treco assim

Bem apontado nariz chato assim assim

Quando aparece a cor do velho



Mas Guarda Belo não acredita na cor assim

Ele decide o terno velho assim assim

Porque ele quer o velho assado



Mas mesmo assim o velho morre assim assim

E o Guarda Belo é o herói assim assado

Porque é preciso ser assim assado


Danilo Meiras

Causos da MPB – Eles souberam amar





Não sei se é realidade ou ficção, mas certamente é uma história espetacular de Oswaldo Montenegro. Cantor, compositor, autor teatral e diretor musical, Oswaldo é tudo isso e muito mais. Criador de melodias lindíssimas e dono de uma voz de encher os ouvidos.


É a história de sete jovens da quase adolescente Brasília, Planalto Central, no começo dos anos 70, sob os conflitos da juventude e da situação do Brasil. Todos eles a fim de viver de teatro na época da ditadura - sonhos pra no real achar seu lugar. Entre eles, Léo e Bia.


Léo era o líder de um grupo que fazia da arte uma forma de contestação, e que buscava, de forma coletiva, concretizar os sonhos em meio às alegrias e tristezas do bando. Bando que contava com Bia, desejo amoroso de Léo, desejo amoroso de Bia.


Bia e Léo viviam sempre juntos e se amavam cada dia mais. Porém, numa época vivida sob o medo, a mãe de Bia temia pelo bem da filha junto ao grupo, e, em especial, junto ao Léo. Como se a própria genitora fosse a mão de ferro da opressão, Bia se vê isolada, à revelia da mãe, dos amigos, profissão, escola e religião. Bia sofre uma pressão danada e se muda pra Belém do Pará, longe do amor, longe dos sonhos, como se houvesse faca no ar.


O medo da mãe era da ditadura ou era do sonho de Bia? E o pior para Bia foi sofrer a opressão da ditadura ou da própria mãe?


Mas voltando ao começo do texto, Oswaldo foi enigmático quanto a realidade da história: “Algumas coisas que estão no filme eu vivi, outras me contaram ou inventei...”




Léo e Bia


Oswaldo Montenegro



No centro de um planalto vazio


Como se fosse em qualquer lugar


Como se a vida fosse um perigo


Como se houvesse faca no ar


Como se fosse urgente e preciso


Como é preciso desabafar


Qualquer maneira de amar varia


E Léo e Bia souberam amar



Como se não fosse tão longe


Brasília de Belém do Pará


Como castelos nascem dos sonhos


Pra no real achar seu lugar


Como se faz com todo cuidado


A pipa que precisa voar


Cuidar de amor exige mestria


E Léo e Bia souberam amar

Causos da MPB - O amor nos tempos de cólera*







Numa sociedade preconceituosa.

- Preconceito que subsiste.

Cleonice era um ano mais velha.

Desquitada.

Mãe de uma filha.

Roberto Carlos estava triste na estrada de Santos.

Convidaram o rei para um programa de televisão.

Um programa de entrevistas.

Um dos coroinhas perguntou:

- Você não se envergonha de viver em pecado?

Roberto Carlos perdeu a calma.

Pela primeira e última vez na frente das câmeras.

Olhou com olhos tristes o homem santo que lhe crucificava.

E sentenciou:

- Pecado é não amar.

Naqueles tempos tenebrosos.

Em que pessoas sumiam nas esquinas.

Em que se tinham amantes.

Mas se mantinham o casamento postiço na sociedade.

O Rei pegou Cleonice e saiu do país.

Casou onde lhe permitiam casar.

E mandou todo mundo pro inferno!

Cruel.

A sociedade assistiu o filho do casal nascer.

Atingido por um glaucoma congênito.

Teve gente que afirmou que o filho era doente.

Por ser fruto do pecado.

Eu era pequeno e ouvia essas conversas.

Fã do cantor de quem herdei o nome.

Cantor que reagiu às dores e maldades do mundo.

Cantando "Como é grande o meu amor por você!"

*Roberto Vieira, dando uma pequena ajuda para os amigos.






COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊ
Erasmo/Roberto



Eu tenho tanto pra lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você

E não há nada pra comparar
Para poder lhe explicar
Como é grande o meu amor por você

Nem mesmo o céu e as estrelas
Nem mesmo o mar e o infinito
Não é maior que meu amor nem mais bonito

Me desespero a procurar
Alguma forma de lhe falar
Como é grande o meu amor por você

Nunca se esqueça nenhum segundo
Que eu tenho o amor maior do mundo
Como é grande o meu amor por você

Causos da MPB - descobrindo o Pantanal


Paulo Simões é um violeiro típico do Pantanal. Daqueles que contam causos e têm medo de onça. Amigo e parceiro de muita gente boa, tais como Almir Sater e Sérgio Reis.

No começo dos anos 80, Simões e Sater estavam numa varanda no Mato Grosso do Sul olhando o por-do-sol, jogando conversa fora e resolveram atiçar um velho morador do Pantanal com perguntas relativas à região pantaneira. Esse velho conhecia tudo! Lugares que os dois violeiros ainda nem tinham ouvido falar.

Então, Simões (o mais animado) e Sater resolveram montar um tipo de comitiva a fim de "descobrir" aquele pedaço de chão tão bonito e rico em todos os sentidos. Chamaram mais dois aventureiros, montaram em seus cavalos, aboiaram o berrante, câmara na mão e ficaram de novembro de 83 a janeiro de 84 registrando tudo que encontravam pela frente. Além de fazerem algumas preciosas músicas.

A Bacia da Prata estava, enfim, contabilizada. E os artistas puderam mostrar ao velho pantaneiro das varandas sul-matogrossenses que também conheciam Piqueri, Nhecolândia e Corumbá.

Paulo Simões e Almir Sater deram à comitiva um nome, Esperança. E, por ela, fizeram uma belíssima canção homônima que foi um dos maiores sucessos de uma das melhores novelas que a televisão brasileira já gravou, Pantanal.

COMITIVA ESPERANÇA
Paulo Simões / Almir Sater

Nossa viagem não é ligeira, ninguém tem pressa de chegar
A nossa estrada, é boiadeira, não interessa onde vai dar
Onde a Comitiva Esperança, chega já começa a festança
Através do Rio Negro, Nhecolândia e Paiaguás
Vai descendo o Piqueri, o São Lourenço e o Paraguai

Tá de passagem, abre a porteira, conforme for pra pernoitar
Se a gente é boa, hospitaleira, a Comitiva vai tocar
Moda ligeira, que é uma doideira, assanha o povo e faz dançar
Oh moda lenta que faz sonhar
Onde a Comitiva Esperança chega já começa a festança
Através do Rio Negro, Nhecolândia e Paiaguás
Vai descendo o Piqueri, o São Lourênço e o Paraguai
Ê, tempo bom que tava por lá,
Nem vontade de regressar
Só vortemo eu vô confessar
É que as águas chegaram em Janeiro, deslocamos um barco ligeiro
Fomos pra Corumbá

Causos da MPB – Aborto e prostituição


O aborto foi, é e sempre será um tema polêmico. Tanto pela religião quanto pela política e pareceres ora contra ora a favor. Para se ter uma ideia, alguns bispos considerados magistrais pela Igreja Católica já entraram em contradição sendo que um ou outro fora excomungado por ostentar tal opinião a favor da morte do feto de forma abortiva.

Lembro até de um caso recente em Pernambuco, ano passado, em que um padre excomungou uma equipe de médicos porque eles haviam feito o aborto em uma menina de 13 anos, por mais que o feto apresentava acefalia e a pequena mãe sofria sérios riscos de morte.

Outro assunto extremamente polêmico é a prostituição. Mais ainda quando esta se dá de forma em que o corpo é o objeto prostituído. Por mais que seja uma das profissões mais antigas da humanidade, a venda de si em busca da sobrevivência é criticada, mal vista e difamada por todos, sem exceção. Enfim, dois assuntos cercados de tabus.

Quem poderia por estes dois temas numa música? Ou um gênio ou um louco. Ou melhor, um bando de loucos. O grupo Tianastácia, uma das melhores bandas de rock surgidas nos últimos anos escassos de bandas legais.

Num programa de entrevistas na rádio 98 FM, logo à época do lançamento do primeiro disco de sucesso do grupo (Tá Na Boa), perguntou-se à banda sobre a musiquinha “Fazedora de Anjos”, que, num primeiro momento, soa como uma bobaginha qualquer. Foi aí que Maurinho Nastácia revelou:

- No dicionário Aurélio, Fazedora de Anjos é a parteira que faz aborto, e foi daí que surgiu a ideia da música.

Claro que todos piraram. E claro que foi uma genial sacada da banda ao unir os riscos da prostituição com a geração de um ser. E é claro que se trata de uma preciosidade.

Fazedora de Anjos

Dor de alma como dói
Sofrimento é ganha-pão
E alma de anjinho chora
Que viu chegar sua hora entre porquês e razões

Ê, mãe, eles me aspiraram
Ê, mãe, cê deixou curetar
Ê, mãe, me arrancaram em pedaços
Ê, mãe, eu não pude chorar
Danilo Meiras

Causos da MPB - Piano no Samba



Benito di Paula apareceu no mundo do samba de forma meteórica e inovadora. Arrasou com "Mulher Brasileira" e com o uso do piano em um ritmo em que este instrumento não ameaçava ser usado nem na cabeça do mais mestre dos maestros. Pois bem, Benito assim fez.

Aí virou aquela febre. Até Tom Jobim, maestro-mor da MPB, resolveu, ao lado de Chico Buarque, fazer samba com piano. E o negócio deu certo e fez sucesso: "Piano na Mangueira", "Estação Derradeira", "Corrente" e "Chão de Esmeraldas" foram algumas que emplacaram nas rádios do país afora.

E se o samba já era um produto genuíno tupiniquim e, agora, podia-se usar um instrumento efetivamente europeu, a galera do Velho Mundo pirou. Fez aquele tanto de festival e os convidados mais esperados eram os brasileiros com as suas inovações, em sua maior parte devido ao Benito di Paula.

Porém, no Brasil, o que é moderno não é eterno, e a turma da velha guarda não ficou muito afim dessa nova forma de fazer samba. Na verdade, esculhambou geral. Pois foram, inclusive, ataques pessoais a Benito acusando-o de cheirar cocaína e virar a noite bebendo uísque, o que acarretou na desgraça da vida pessoal do pianista.

Mas, com a classe que todo príncipe tem, Paulinho da Viola, um excelente sambista que era contrário às invencionices e pessoa da maior sumpipitude, alfinetou todos, tanto Benito quanto aqueles que queriam permanecer retrógrados, e fez um samba magistral - Argumento.




ARGUMENTO

Tá legal!
Tá legal, eu aceito o argumento
Mas não me altere o samba tanto assim
Olha que a rapaziada está sentindo a falta
De um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim

Sem preconceito ou mania de passado
Sem querer ficar do lado de quem não quer navegar

Faça como um velho marinheiro
Que durante o nevoeiro
Leva o barco devagar




Danilo Meiras

Causos da MPB – protestos dos anos 70


A década de 70 foi a redenção da Música Popular Brasileira, mesmo que desde o final da década de 50 ninguém poderia contestar a riqueza e força que as canções populares no Brasil pudessem exercer de forma impactante em todas as camadas de poder do povo tupiniquim.

Na década de 70, vivida sob a mão da ditadura e sob o fantasmagórico milagre brasileiro, juntaram a Chico, Gil, Caetano, Jobim e Edu Lobo (entre outros) os “modernos” Raul, Zé Ramalho, Belchior, Alceu, Ivan Lins, João Bosco, Fagner e Kleiton & Kledir, entre outros tantos.

A grande marca dessa galera toda foi, seguindo o embalo da moçada “mais velha”, metralhar de toda forma o sistema vigente da época, ora de modo direto ora indiretamente, com levar ao povo a angústia de ser povo em que nada dava certo, o horizonte não havia e o que restava era o sofrimento. Por ser de modo sutil e subjetivo e ser algo que não atingia substancialmente o governo, os órgãos da ditadura nem se atinavam pra isso. Na verdade, nem precisavam também, senão só teríamos músicas pachequistas e utópicas.

Muitos artistas surgiram e sumiram na década de 70, alguns caracterizados como músicos de uma música só. Aquela que faz um sucesso danado, vende não sei quantos elepês e, assim que surge uma nova faixa do artista, não dura nem uma semana no ar e o músico some por completamente da mídia.

Hermes Aquino com sua “Nuvem Passageira” e Sílvio Brito com seu “Pare o mundo que eu quero descer” foram um desses. Hoje, ainda aparecem por aí cantando as mesmas músicas. E, na onda, estas músicas também são de protestos e reclamações e sofrimentos humanos. “Eu sou nuvem passageira que como o vento se vai...” ou “...tem que pagar pra nascer, tem que pagar pra viver, tem que pagar pra morrer...”.

Raul Seixas, presenciando esse novo formato e vendo que existia um jeito fácil de fazer canção, resolveu escancarar (como ele mesmo dizia). Botou a boca no microfone e com seu jeito irreverente de sempre alertou: pra que esse sofrimento todo jogado em cima do cidadão brasileiro se o problema mais sério que se possa existir pra esse tipo de gente é se falta ou não galinha no seu quintal? Segundo Raulzito, o povo não estava querendo saber de falsas crises existenciais que sempre eram lançadas aos ouvidos pelos “novos” cantores de rádio.

Sei que sobrou até pra Belchior...




EU TAMBÉM VOU RECLAMAR
Raul Seixas/Paulo Coelho

Mas é que se agora pra fazer sucesso
Pra vender disco de protesto todo mundo tem que reclamar
Eu vou tirar meu pé da estrada
E vou entrar também nessa jogada
E vamos ver agora quem é que vai agüentar
Porque eu fui o primeiro e já passou tanto janeiro
Mas se todos gostam eu vou voltar

Estou trancado aqui no quarto de pijama
Porque tem visita estranha na sala
Aí eu pego e passo a vista no jornal
Um piloto rouba um mig, gelo em Marte – diz a Vicking
Mas no entanto não há galinha em meu quintal
Compro móveis estofados, me aposento com saúde pela assistência social

Dois problemas se misturam:
a verdade do universo e a prestação que vai vencer
Entro com a garrafa de bebida enrustida
Porque minha mulher não pode ver
Ligo o rádio e ouço um chato que me grita nos ouvidos:
Pare o mundo que eu quero descer!

Olho os livros na minha estante que nada dizem de importante
Servem só pra quem não sabe ler
E a empregada me bate a porta
Me explicando que tá toda torta e que já não sabe o que vai dar pra mim comer
Falam em nuvens passageiras, mandam ver qualquer besteira
E eu não tenho nada pra escolher

Apesar dessa voz chata e renitente
Eu não estou aqui pra me queixar e nem sou apenas o cantor
Eu já passei por Elvis Presley, imitei Mr. Bo Diddley
Eu já cansei de ver o sol de por
Agora eu sou apenas um latino americano que não tem cheiro nem sabor

E as perguntas continuam sempre as mesmas
Quem eu sou? Da onde venho? Aonde vou dar?
E todo mundo explica tudo:
Como a luz acende, como o avião pode voar
Ao meu lado um dicionário cheio de palavras que eu sei que nunca vou usar

Mas agora eu resolvi dar uma queixadinha
Porque eu sou um rapaz latino americano que também sabe se lamentar
E sendo nuvem passageira
Não me leva nem a beira disso tudo que eu quero chegar
E fim de papo!



Danilo Meiras

Causos da MPB – Gente humilde


Vinícius de Moraes é um cara que dispensa comentários. Por sua fabulosidade, seu magnetismo pessoal, sua inteligência e, claro, por seus poemas. Um boêmio assumido, preferia o uísque às outras bebidas. Mas não deixava o lado seresteiro e cantador de fora em suas inúmeras farras e festas noites adentro no longínquo Rio de Janeiro, onde a tristeza da gente era muito mais bela.

Garoto foi um violonista excepcional. Autodidata, escreveu inúmeras peças para violão além de participar da Rádio Nacional como sonoplasta humano, ou seja, acompanhava no instrumento à medida que aconteciam os atos no estúdio. E tudo isso ao vivo! Dizem que sua rica harmonização em “Duas contas” o credenciou como precursor da bossa nova. Garoto morreu em 1955, deixando muitas melodias à solta.

A fim de homenagear o violonista, Vinícius decidiu botar uma letra em uma melodia de Garoto. A escolhida foi Gente humilde. E assim que escrevia, o poetinha bebia seu uísque. E assim que terminara, Chico Buarque, outro artista que dispensa comentários, bate à porta querendo tomar uma cachacinha.

Chico entra - meio acanhado como é de costume, bebe uns tragos, conta alguns casos e ouve da boca de Vinícius:

- Chico, olha o que acabei de compor. A letra é em cima da melodia Gente Humilde de Garoto.

Chico lê atentamente e sente o coração disparar, pois acha a composição uma obra de arte. E ele não para de elogiar, ficando até um pouco chato. E sente uma ponta de inveja que Vinícius percebe. O mais negro de todos os brancos, acima de tudo, tinha um coração enorme, e fala pro amigo:

- Faz o seguinte, Chico, bota uma palavra qualquer aí e faz de conta que a composição é de nós três.

Claro que Chico aceitou. Mas não se sabe, até hoje, qual palavra foi colocada ou retirada ou, mesmo, se nada foi mudado. O certo é que na composição de Gente Humilde estão as assinaturas: Garoto, Vinícius de Moraes e Francisco Buarque de Holanda.





Gente humilde

Vinícius de Moraes/Chico Buarque/Garoto

Tem certos dias em que eu penso em minha gente

E sinto assim todo o meu peito se apertar

Porque parece que acontece de repente

Como um desejo de eu viver sem me notar

Igual a tudo quando eu passo no subúrbio

Eu muito bem vindo de trem de algum lugar

E aí me dá uma inveja dessa gente

Que vai em frente sem nem ter com quem contar

São casas simples com cadeiras na calçada

E na fachada escrito em cima que é um lar

Pela varanda flores tristes e baldias

Como a alegria que não tem onde encostar

E aí me dá uma tristeza no meu peito

Feito um despeito de eu não ter como lutar

Eu que não creio peço a Deus por minha gente

É gente humilde, que vontade de chorar

Causos da MPB – o amor é maior


Em meados do início do século XXI, houve um acontecimento inusitado e trágico que chamou a atenção dos cariocas. E mais, era um acontecimento apaixonante.

Eram duas pessoas totalmente apaixonadas entre si, porém, havia um fato cabal no meio deles: ambos eram casados, e com outras pessoas, logicamente.

Mas ao amor não existe fronteira, nem nada que possa diminuir tamanho sentimento. E assim, ambos à flor da idade, com famílias criadas e satisfação a dar aos pares, viviam se encontrando escondidamente. Até que foram deliciar-se no motel Estrela de Copacabana.

Por ironia do destino (ou de Eros mesmo), o motel onde se amavam começa a pegar fogo e ruir. Há um incêndio fora e dentro do quarto em que o casal está. E eles não ligam, pelo contrário, amam-se mais.

Chegam os bombeiros e estes são avisados que há pessoas no recinto. Aí, saem batendo porta a porta a fim de avisar e resgatar o pessoal. Até que chegam no quarto do casal apaixonado e batem desesperadamente.

Os dois, dentro, não respondem nem dão sinal de vida, pois só querem curtir o momento transcendental. E assim, continuam se amando cada vez mais forte. E os bombeiros batem, avisam e suplicam para que saiam. Mas o casal não quer nem saber: já tinham rugas demais e preferiam viver o amor sem fugas. E ficam. E se amam. E se incendeiam. E morrem.

Morreram a favor do maior sentimento que o homem pode ter (na verdade, ninguém sabe ao certo se eles não quiseram abrir para continuarem o amasso ou se foi o medo de serem vistos num motel com outros pares).

Com isso, Marcelo Camelo, ex-integrante da banda Los Hermanos e hoje namorado de Mallu Magalhães, capta o enredo da epopeia suburbana brasileira e traduz em poesia e música da forma mais lindamente que se possa imaginar.




Conversa de Botas Batidas
Marcelo Camelo

- veja, você, onde é que o barco foi desaguar
- a gente só queria o amor
- Deus parece às vezes se esquecer
- ai, não fala isso, por favor...
- esse é só o começo do fim da nossa vida
deixa chegar o sonho
prepara uma avenida que a gente vai passar

- veja, você, quando é que tudo foi desabar
- a gente corre pra se esconder
- e se amar e se amar até o fim
- sem saber que o fim já vai chegar...
- deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar

abra a janela agora
deixa que o sol te veja
é só lembrar que o amor é tão maior
que estamos sós no céu
abre as cortinas pra mim
que eu não me escondo de ninguém
o amor já desvendou nosso lugar
e agora está de bem

- deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar

diz quem é maior que o amor?
me abraça forte agora que é chegada a nossa hora
vem, vamos além
vão dizer que a vida é passageira
sem notar que a nossa Estrela vai cair
Danilo Meiras

Causos da MPB – os pêsames de Caetano


Torquato Neto foi contemporâneo de Gil, Caetano, Gal, Bethânia e Capinan. Deste, tinha ódio e, inclusive, escreveu uma famosa carta a Hélio Oiticica sobre o desafeto. Porém, nada os impedia de lançar ao mundo o Tropicalismo.

Torquato morreu jovem, angustiado pelos rumos que o Brasil tomara. Não só políticos (tais quais as ditaduras) mas, principalmente, culturais. Era um piauiense arretado – nascido em Teresina, lapidado em Salvador e crítico no Rio de Janeiro. Um dia após seu aniversário de 28 anos, Torquato Pereira de Araújo Neto, depois de voltar de uma festa, tranca-se no banheiro e abre o gás. Sua mulher, Ana Maria, dormia em outro aposento da casa, sendo que o suicídio só foi descoberto no outro dia pela manhã, e pela empregada.

Sua nota suicida dizia: “Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudem demais o Thiago, que ele pode acordar”. Thiago era o filho de dois anos.

Alguns dias após o enterro, Caetano Veloso foi visitar o pai de Torquato em Teresina a fim de dar os pêsames à família do poeta. O patriarca da família, bastante triste e mudo, recebeu o cantor. Pediu pra preparar uma cajuína (bebida típica do Piauí) para eles e, na hora de Caetano sair, entregou-lhe, com lágrimas nos olhos, uma rosa e disse:

- A que se destina a nossa existência?


Caetano só poderia homenageá-lo.


Cajuína
Caetano Veloso
Existirmos a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina
Danilo Meiras

CAUSOS DA MPB - Chico x Cyro








Francisco Buarque de Holanda é um cara que nasceu para brilhar. Pois é um gênio. Daqueles raros. Músico, letrista, escritor e produtor musical em teatro, Chico é tricolor fluminense doente. E é amigo de Cyro Monteiro, flamenguista alucinado.


Cyro Monteiro é cantor, compositor, sambista e, dizem, o maior tocador de caixinha de fósforo do mundo.


A rivalidade entre os clubes supracitados era enorme nas décadas de 60 e 70. O Fluminense sustentava a pose pó-de-arroz e criou a Máquina de 75, com Rivelino, Doval, Pintinho e Caju, entro outros. Enquanto a paixão da classe média pobre do Rio crescia inexplicavelmente pelas cores rubronegras, com as ajudas de Dida, Dequinha, Garcia e um menino chamado Zico.


A camisa do Flu apresenta as cores branca, vermelha (que na verdade é grená) e verde, na vertical, e a do Fla, vermelha e preta na horizontal.


Assim que a filha de Chico nasceu, Cyro, de sacanagem, enviou uma camisa do Flamengo para ela. Não perdendo o bom humor e aproveitando sua genialidade de ideias, Chico respondeu assim:



Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita pra virar casaca de neném:





Amigo Cyro, eu muito te admiro

Meu chapéu te tiro muito humildemente

Minha petiz agradece a camisa que lhe deste à guisa

De gentil presente

Mas caro nêgo,

Um pano rubronegro é presente de grego e não de um bom irmão

Nós separados nas arquibancadas

Temos sidos tão chegados na desolação



Amigo velho, amei o teu conselho

Amei o teu vermelho que é de tanto ardor

Mas quis o verde que te quero verde

É bom pra quem vai ter de ser bom sofredor

Pintei de branco teu preto ficando completo o jogo de cor

Virei-lhe o listrado do peito

E nasceu desse jeito uma outra tricolor





*A Sexta de Pão contará, uma vez por mês, um causo da nossa riquíssima Música Popular Brasileira.