Mostrando postagens com marcador Danilo Meiras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Danilo Meiras. Mostrar todas as postagens

Aos amigos desses trapos


Tem que endurecer sem perder a ternura jamais


Tem que poetar


Mesmo que esteja escrito no grande livro da sabedoria popular


Então, por que os mestres descansam?


A vida deixou de ser inspiração?


Ou pior, a vida deixou de ter inspiração?


Lembrem-se:


Toda maneira de amor vale a pena


Toda maneira de amor vale amar

Aos meus caros amigos








Amanhã é dia de sol

De gol

De futebol

De rock and roll

De violão

De diversão

De gozação

De palhaçada

De cachaçada

De ri do nada

De ser criança

De entrar na dança

De uma lambança

De uma picanha

De uma façanha

De paz tamanha

De sem vergonha

De dor risonha

De ser que sonha

De brincadeira

Pra vida inteira

Causos da MPB - Nordeste já!








Valendo-se ainda do filão engajado da pós-ditadura e aproveitando o sucesso do hit "We are the world", um grupo de cantores resolveram se unir e lançar um compacto simples (aquele disquinho que só cabem duas músicas, uma de cada lado) com o título de "Nordeste Já".

O grande motivo desse disco, além de dar voz ao feminismo crescente da época, era angariar fundos para a população carente e flagelados das chuvas no Nordeste, pois, no verão de 1985, houve uma inundação gigante naquela região do país. Vendido pela Caixa Econômica Federal, com renda destinada a uma região que, ao contrário do que sempre ocorreu (a seca), não penava pela falta d'água e, sim, pelo excesso dela.

Sendo assim, tanto "Chega de Mágoa" quanto "Seca D'água" foram finalizadas após composições coletivas. Porém, a última, veio de um poema do Mestre Patativa do Assaré - poeta e uma das principais figuras nordestinas do século XX. Participaram do compacto, entre outros, Alceu Valença, Alcione, Amelinha, Baby Consuelo, Belchior, Beth Carvalho, Caetano Veloso, Chico Buarque, Cláudio Nucci, Djavan, Ednardo, Edu Lobo, Eduardo Dusek, Elba Ramalho, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Erasmo Carlos, Fafá de Belém, Fagner, Fátima Guedes, Fernando Brant, Gal Costa, Geraldo Azevedo, Gilberto Gil, Golden Boys, Gonzaguinha, Guilherme Arantes, Ivan Lins, Joanna, João do Vale, Joyce, Kleiton & Kledir, Kid Abelha, Kid Vinil, Leoni, Léo Jaime, Luiz Gonzaga, Luiz Melodia, Lulu Santos, Maria Bethânia, Marina Lima, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Miúcha, Moraes Moreira, MPB-4, Nara Leão, Paulinho da Viola, Pepeu Gomes, Rita Lee, Roberto Carlos, Roberto Ribeiro, Roger, Sandra de Sá, Simone, Tânia Alves, Tavito, Tim Maia, Tom Jobim, Tunai, Wagner Tiso, Zé Ramalho e Zizi Possi.

O que a grande maioria dos compositores e artistas participantes do disco não contava era a crítica especializada pela incapacidade de harmonizar as vozes e o enquadramento de cada uma delas no coro. Pareceu até inveja dos excluídos, porque as músicas ficaram belíssimas. E quem tiver a oportunidade de escutá-las não irá se arrepender.

Segue a letra com os respectivos intérpretes de Chega de Mágoa:

Chega de Mágoa

(Milton Nascimento)
Nós não vamos nos dispersar
Juntos
É tão bom saber
Que passado o tormento
Será nosso esse chão

(Djavan)
Água, dona da vida
Ouve essa prece tão comovida

(Rita Lee)
Chega
Brinca na fonte
Desce do monte
Vem como amiga

(Coro)
Te quero água pra beber
Um copo d'água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero orvalho toda manhã

(Gal Costa)
Terra, olha essa terra
Raça valente, gente sofrida

(Gonzaguinha)
Chama

(Elba Ramalho)
Tem que ter feira

(Gonzaguinha)
Tem que ter festa

(Gonzaguinha & Elba Ramalho)
Vamos pra vida

(Chico Buarque)
Te quero terra pra plantar

(Chico Buarque & Fafá de Belém)
Te quero verde

(Caetano Veloso)
Te quero casa pra morar

(Caetano Veloso & Simone)
Te quero rede

(Paula Toller & Roger)
Depois da chuva o sol da manhã

(Maria Bethânia)
Chega de mágoa
Chega de tanto penar

(Coro)
Canto e o nosso canto
Joga no vento
Uma semente
Gente, olha essa gente

(Elizeth Cardoso)
Te quero água pra beber
Um copo d'água
Marola mansa da maré
Mulher amada

(Gilberto Gil)
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede

(Elizeth Cardoso)
Depois da chuva o sol da manhã

(Coro com Tim Maia no contracanto)
Canto e o nosso canto
Joga no tempo uma semente
Gente

(Roberto Carlos)
Quero te ver crescer bonita

(Coro)
Olha essa gente

(Erasmo Carlos)
Quero te ver crescer feliz

(Coro)
Olha essa gente

(Roberto Carlos & Erasmo Carlos)
Olha essa terra, olha essa gente

(Coro)
Olha essa gente

(Roberto Carlos)
Gente pra ser feliz, feliz

(Coro com Tim Maia no contracanto)
Te quero água pra beber
Um copo d'água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o sol da manhã

(Fagner)
Chega de mágoa
Chega de tanto penar

O POVO DO FUTURO






Hoje é o penúltimo dia de uma semana daquelas

Sim

O que aconteceram nesses dias históricos

Não cabe num papel

Nem numa bandeira feita de trapos

12 de Julho:

Pelé se consagra como atleta do século

E nasce um chileno chamado Neruda

13 de Julho:

Dia mundial do rock

Precisa dizer mais algo?

14 de Julho:

Queda da bastilha

França mudando o mundo

15 de Julho:

Dia internacional do homem

Dia de um tal Miró

16 de Julho:

Agora a vez é dos bolcheviques

Os russos ensinando a trabalhar

Maça!

Não sou eu quem conta essa história

E a história que adora uma repetição

Tudo isso passando em nossa volta

E nós continuando não querendo saber

Não querendo nem saber



____

Danilo Meiras.

CERTEZA IMPRECISA


Enxergo

Não nego

Estou iluminado pra poder cegar

Estou ficando cego pra poder guiar

E fica uma certa impressão

Ou uma certeza imprecisa

Explicar pra confundir

Confundir pra esclarecer

Enfim

Quem não precisa de uma versão?

Uma tradução?

Era cego até quando pude

Agora viajo nas estradas dessa infinta highway...

Danilo Meiras

Causos da MPB - A feminina Rita


Aproveitando a "onda discoteque" dos anos 70, surgiu no Rio de Janeiro, em 1976, uma casa de show de arregaçar - a famosa Frenetic Dancin' Days. O sucesso foi tremendo a ponto de a Rede Globo promover uma novela com o mesmo nome.

As Frenéticas, grupo que embalava os convidados da boate sendo tanto as garçonetes quanto as animadoras de palco, eram Sandra Pêra (irmã de Marília Pêra), Regina Chaves, Nêga Dudu, Edir de Castro, Lidoka e Leiloca. Uma verdadeira animação no disputado espaço da noite carioca.

O produtor musical da casa era o músico Roberto de Carvalho, que então começava a namorar a roqueira Rita Lee e que fazia as músicas para que as Frenéticas se apresentassem ao público.

O público foi capturado por uma combinação inusitada de humor picante, erotismo nas roupas e nas letras das músicas, ritmo contagiante e uma performance esfuziante no palco. Porém, é de se lembrar que nesta época, o país vivia sob a mão dura dos generais e todas as letras de músicas deviam passar por análise do DOPS. E, ao depararem com uma letra de forte apelo erótico como em "Perigosa", Roberto de Carvalho e Nelson Motta (o idealizador da boate) sabiam que a música seria censurada.

Só que eles, conhecedores de músicas que são, também sabiam que não podiam modificar a letra, pois geraria uma quebra de tudo na melodia de "Perigosa", ainda mais com os gritinhos histéricos e gemidos sussurrantes da canção. Assim, entrou em cena Rita Lee, que por ali passava. Femininamente, propôs:

- Manda a letra "Eu vou fazer você ficar louco, muito louco" e tira o "Dentro de mim".

Sabedores de que mandar letra errada é o pior castigo, os dois bradaram:

- Mas não podemos omitir parte da letra!

- Mas quem disse que vão mandar errado? Só que, em vez de por o "Dentro de mim" no final, põe no início.

O que deveria ficar "Eu vou fazer você ficar louco, muito louco dentro de mim" (e que não passaria, ainda mais sendo cantada por mulheres) virou "Dentro de mim eu sei que eu sou bonita e gostosa". Um olhou pro outro e não tinham mais o que fazer, a não ser por Rita Lee, também, como compositora da melodia.


PERIGOSA
Roberto de Carvalho / Nelson Motta / Rita Lee

Eu sei que eu sou bonita e gostosa
E sei que você me olha e me quer
Eu sou uma fera de pele macia
Cuidado, garoto! Eu sou perigosa

Eu tenho um veneno no doce da boca
Eu tenho um demônio guardado no peito
Eu tenho uma faca no brilho dos olhos
Eu tenho uma louca dentro de mim

Eu posso te dar um pouco de fogo
Eu posso prender você, meu escravo
Eu faço você feliz e sem medo
Eu vou fazer você ficar louco
Muito louco
Muito louco
Dentro de mim



Danilo Meiras

Amigo Paul



Meu caro amigo, Paul.

Já deu bom dia ao sol hoje?

Viu o pássaro preto voando?

Escutou a banda do Sargento Pimenta?

Ou ainda continua lembrando do ontem?

Como um tolo na colina?

Pois eu também a vi parada lá.

Em Penny Lane.

Quando eu tinha 17.

Fechei os olhos e a beijei.

Sonhos dourados...

Julia?

Jude?

Eleanor?

Rita?

Martha?

Michelle?

Linda!

Oh, querida...

Você nunca me deu seu dinheiro.

Não carregue esse peso.

Pois não se pode comprar amor.

Aqui, ali ou em qualquer lugar.

Deixe estar.

Esta é uma estrada longa e sinuosa.

- Coisas que dissemos hoje...

...no aniversário de Macca.


Danilo Meiras

Causos da MPB - Uma cor assim


Secos & Molhados foi uma banda além do seu tempo. Idealizada no fim dos anos sessenta e despontada no começo dos setenta, João Ricardo, Gerson Conrad e Ney Matogrosso deram à banda uma formação clássica e cheia de clássicos: "Sangue Latino", "O Vira" e "Rosa de Hiroshima" estão nas rádios até hoje. A capa de seu disco de estreia é reverenciada como melhor capa de todos os tempos no Brasil em estudo feito pelo jornal Folha de São Paulo.

Como todo grupo dos anos de chumbo, Secos & Molhados viveu sob a mão de ferro da ditadura. E, também, como quase todo artista daquela época, era contra a censura violenta dos generais brasileiros. Generais que mandavam matar e/ou torturar todos comunistas que encontravam no caminho. Ordem seguida ao pé-da-letra pela polícia e guardas que botavam a pátria nas pontas dos cassetetes.

Logo, João Ricardo, um português arretado e calejado da terra de Calabar, resolveu contar esta história colocando a comicidade de uma expressão popular brasileira, o "assim assado":

Um homem idoso caminha de madrugada e é encontrado pelo Guarda Belo (do Manda-Chuva) que identifica cor do velho e resolve matá-lo porque não acredita em tal cor. Ou seja, o Guarda Belo age de acordo com o status quo ("porque é preciso ser assim assado") e elimina um senhor que porta uma cor suspeita, que não é especificada, mas deduz-se que pode ser o vermelho, que simboliza o comunismo.

Com uma melodia peculiar, uma sonoridade riquíssima e um ritmo que não se enquadra em nenhum movimento, a música passou e a banda se divertia e nos divertia(diverte até hoje!) imensamente, assim assim.



ASSIM ASSADO

João Ricardo/Paulinho Mendonça



São duas horas da madrugada de um dia assim

Um velho anda de terno velho assim assim

Quando aparece o Guarda Belo



É posto em cena fazendo cena um treco assim

Bem apontado nariz chato assim assim

Quando aparece a cor do velho



Mas Guarda Belo não acredita na cor assim

Ele decide o terno velho assim assim

Porque ele quer o velho assado



Mas mesmo assim o velho morre assim assim

E o Guarda Belo é o herói assim assado

Porque é preciso ser assim assado


Danilo Meiras

O CASO DA CAIXA E DO CAIXÃO




Nessas andanças da vida, a gente ouve e ri de muita coisa. Coisas que, realmente, são feitas para serem ouvidas e gargalhadas. Como o que narro a seguir:

Em uma cidadezinha do interior sulista de Minas Gerais, havia uma funerária cujo motorista era festeiro ao extremo. Tanto que foi justamente numa festa que ele conheceu Lelê, que logo virou amigona do peito.

Com o tempo passando aumenta-se a intimidade, pois o motorista festeiro da funerária chegava à casa de Lelê com o porta-malas entupido de cerveja pronto pra começar uma nova farra. Bastavam alguns telefonemas e uma nova reunião começava.

Lelê tinha um vizinho já idoso que, num dia belíssimo de sol escaldante e céu límpido, morreu de causas naturais. O corpo do velho estava no hospital da cidade para completar os dados dos obituários burocráticos. E a família do morto choramingava e esperava para que desse início ao ritual do velório.

Só que ninguém avisou ao motorista festeiro da funerária. Aliás, ninguém nem se tocou que era o motorista festeiro da funerária que chegava no carro fúnebre e estacionava o veículo quase à porta da casa do recém-finado. Todos se aglomeraram em volta do carro fazendo aquele tipo que mineiro costuma fazer: olha de ombros mas prestando uma atenção danada. Obviamente, esperando o caixão. Foi quando o motorista festeiro da funerária abre o bagageiro e grita:

- Lelê, me ajuda com essa caixa de cerveja aqui!

Seria engraçado se não fosse trágico. Lelê ficou vermelha de vergonha, sua mãe queria matar o motorista, o pessoal da rua ria intensamente por dentro e a família do defunto contemporizava:

- Não tem problema, Dos Anjos (a mãe de Lelê). Meu pai adorava uma farra. Deixa eles beberem em paz.

E assim entraram pra dentro da casa sobre uma nuvem de interrogações que foi dissipada em minutos, já que melhor mesmo era beber o defunto.




Danilo Meiras

Eu quero ser Rimbaud


Eu quero ser um maldito!

Meu sonho é ser um maldito!

Daqueles que tocam um sol menor depois de um dó sustenido.

Que não têm raiva de um diminuto - mesmo que seja um ré.

Que floreiam um fá com nonas e sétimas.

Que até gostam do lá.

Mas preferem na sexta aumentada.

Um amaldiçoado não odeia ninguém.

Não inveja ninguém.

Muito menos aspira ser alguém.

Um amaldiçoado é sincero.

Certeiro.

Direto.

Agudo.

Simples.

Barato.

É um barato!

Baudelaire, Macalé, Luiz Melodia - quanta maldição!

O meu coração não quer dinheiro, quer poesia.

Edgar Allan põe tua mão na pia.

Lava com sabão tua solidão tão infinita quanto o dia.

Ednardo, amanhã vai dar carneiro!

Walter Franco, de fora pra dentro: viver é afinar um instrumento.

Sérgio, o capixaba: tenho tomado algumas e tenho amado uma mesma mulher.

Meus vivas e meus salves aos mais injustiçados músicos do Brasil!

O resto é perfumaria...


Danilo Meiras

Estórias




Das histórias da infância, uma que gosto muito é a da Ladeira Santa Rosa, localizada na estrada Pedra Azul – Almenara. Dizia Seu Horácio, um real personagem marcante na cultura almenarense, que ele era motorista de caminhão na época, e que dava carona aos montes pros trabalhadores da região. Numa dessas suas andanças, seu caminhão perdeu o freio justamente na ladeira supracitada. O problema era que a carroceria estava cheia de gente e Seu Horácio já temia o pior, quando gritava pro povo pular de lá.

- Pula, gente! Pula, gente!

Seu Horácio ia gritando ao mesmo tempo em que controlava o caminhão. E a galera toda pulava a fim de salvarem a vida. Menos um. Seu Horácio olhava no retrovisor e via o camarada lá. Gritava, esbravejava, barafustava, e nada do cara sair. Por sorte do destino, do rapaz da carroceria e de Seu Horácio, este conseguiu controlar a direção do caminhão e parou o veículo no acostamento da estrada. O homem saiu arfando como um fera de dentro da boleia:

- Eu não disse pra pular! Por que não pulou? Você queria morrer, cabra?

O rapaz da carroceria só rezava, com uma corrente amarrada na mão, e respondeu:

- Seu Horácio, enquanto eu estiver com meu São Jorge no pescoço, nada me acontecerá.


Quando mostrou a imagem do pingente a Seu Horácio, só existia o cavalo na imagem. Até São Jorge tinha pulado do caminhão.

Danilo Meiras

Causos da MPB – Eles souberam amar





Não sei se é realidade ou ficção, mas certamente é uma história espetacular de Oswaldo Montenegro. Cantor, compositor, autor teatral e diretor musical, Oswaldo é tudo isso e muito mais. Criador de melodias lindíssimas e dono de uma voz de encher os ouvidos.


É a história de sete jovens da quase adolescente Brasília, Planalto Central, no começo dos anos 70, sob os conflitos da juventude e da situação do Brasil. Todos eles a fim de viver de teatro na época da ditadura - sonhos pra no real achar seu lugar. Entre eles, Léo e Bia.


Léo era o líder de um grupo que fazia da arte uma forma de contestação, e que buscava, de forma coletiva, concretizar os sonhos em meio às alegrias e tristezas do bando. Bando que contava com Bia, desejo amoroso de Léo, desejo amoroso de Bia.


Bia e Léo viviam sempre juntos e se amavam cada dia mais. Porém, numa época vivida sob o medo, a mãe de Bia temia pelo bem da filha junto ao grupo, e, em especial, junto ao Léo. Como se a própria genitora fosse a mão de ferro da opressão, Bia se vê isolada, à revelia da mãe, dos amigos, profissão, escola e religião. Bia sofre uma pressão danada e se muda pra Belém do Pará, longe do amor, longe dos sonhos, como se houvesse faca no ar.


O medo da mãe era da ditadura ou era do sonho de Bia? E o pior para Bia foi sofrer a opressão da ditadura ou da própria mãe?


Mas voltando ao começo do texto, Oswaldo foi enigmático quanto a realidade da história: “Algumas coisas que estão no filme eu vivi, outras me contaram ou inventei...”




Léo e Bia


Oswaldo Montenegro



No centro de um planalto vazio


Como se fosse em qualquer lugar


Como se a vida fosse um perigo


Como se houvesse faca no ar


Como se fosse urgente e preciso


Como é preciso desabafar


Qualquer maneira de amar varia


E Léo e Bia souberam amar



Como se não fosse tão longe


Brasília de Belém do Pará


Como castelos nascem dos sonhos


Pra no real achar seu lugar


Como se faz com todo cuidado


A pipa que precisa voar


Cuidar de amor exige mestria


E Léo e Bia souberam amar

MORTE E VIDA MEDICINA


No meio do ar

Entre vírus e fungos

Resmungo ao mundo

Minha falta de ar

Não fungo a poeira

Atiça minhas vias

Transforma em azia

O meu ressonar

Pulmão que não sopra

Tubérculo podre

Carbono e enxofre

Que sai no falar

Poroso e ativo

Deu nó de fumaça

A santa desgraça

Do povo do bar

Por isso nas veias

Só corre o meu medo

Angina de peito

Adeus, doce lar



Danilo Meiras

1987 - O ano que não acabou


É sempre a mesma discussão: quem foi o campeão brasileiro de futebol de 1987?

Mas sabe mesmo o que me incomoda, é ver torcedores de São Paulo, Botafogo, Goiás, Atlético/MG, Grêmio, Santos, Cruzeiro, Santa Cruz, Palmeiras, Bahia, Internacional, Fluminense, Coritiba e Corinthians bradar o Sport como verdadeiro campeão.

Ora, todos estes times mais o Vasco disputaram a famigerada Taça União.

E todos estes times, com exceção do Vasco, descartaram a ideia do cruzamento final proposto pela CBF quando o torneio já havia iniciado.

Estranho, né?

A CBF não quis organizar o campeonato e deixou na mão do Clube dos Treze, que organiza com a ajuda da Globo. Aí, no meio do campeonato com uma adesão incrível de torcedores, a CBF volta atrás e ordena:

- Vamos fazer um cruzamento final entre os dois módulos!

Não tem jeito. Nem que se houvesse jogado apenas a primeira rodada.

Agora, vamos fazer um exercício de consciência:

Numa semifinal, estavam Flamengo e Atlético/MG.

Numa outra, Inter e Cruzeiro.

Imagina se passam Atlético/MG e Cruzeiro pra grande final?

Alguém ainda iria ficar falando que o campeão foi o Sport?

Pra mim, o campeão foi o Flamengo. Para o restante do Brasil e não-flamenguista foi o Sport. Por que?

Porque o Flamengo é o time da Globo.

Porque o Flamengo tem a maior torcida do país.

Porque o Flamengo eliminou o Atlético/MG em 1981 numa atuação suspeitíssima de Wright.

Porque o Flamengo é o primeiro pentacampeão brasileiro.

Porque o Flamengo é do Rio de Janeiro.

Porque é o Flamengo.

Danilo Meiras

ARQUIBALDOS E GERALDINOS


Tudo isso por causa do futebol...

ele: canalha!
eu: safado!
ele: obtrefe!
eu: pilantra!
ele: bandidão!
eu: calhorda!
ele: proxeneta!
eu: estúpido!
ele: harpia!
eu: caraxué!
ele: moleque!
eu: cafajeste!
ele: vagabundo!
eu: mequetrefe!
ele: energúmeno!
eu: ignominioso!
ele: meretrífilo!
eu: abjeto!
ele: asqueroso!
eu: desprezível!
ele: traíra!
eu: indigno!
ele: insultuoso!
eu: rude!
ele: incaulto!
eu: incivil!
ele: asno!
eu: tosco!
ele: ascarinídio intuberditoso
eu: putz...
ele: chupeta de baleia! perdedor!

Não tinha mesmo como disputar.


Danilo Meiras

CRISTALIZAR


Morre o ser e nasce o pão...


Quais os dias da semana é sexta-feira da paixão?

O pecado nos envolve em forma de viver

Ceando o chocolate - a arte doce de esquecer


A Paixão de Cristo ressurgida para a dor

Pra onde foi aquele homem que ia ser o salvador?


Morre o homem e fica o mito resplandecendo a luz

Peço-O:

Não me abandone feito um filho na cruz!


Rogo a Deus meus pensamentos maus em forma de oração

Já que o homem sem tormento nos tingiu de traição

Deu-nos todos os sentidos pra nenhum poder usar


Deu o dom pecaminoso em troca da religião

Pois usaram sua coragem pra lançar na contramão

Desse povo que de um livro fez a fé cristalizar


Danilo Meiras e Danilo Sousa

Causos da MPB - O amor nos tempos de cólera*







Numa sociedade preconceituosa.

- Preconceito que subsiste.

Cleonice era um ano mais velha.

Desquitada.

Mãe de uma filha.

Roberto Carlos estava triste na estrada de Santos.

Convidaram o rei para um programa de televisão.

Um programa de entrevistas.

Um dos coroinhas perguntou:

- Você não se envergonha de viver em pecado?

Roberto Carlos perdeu a calma.

Pela primeira e última vez na frente das câmeras.

Olhou com olhos tristes o homem santo que lhe crucificava.

E sentenciou:

- Pecado é não amar.

Naqueles tempos tenebrosos.

Em que pessoas sumiam nas esquinas.

Em que se tinham amantes.

Mas se mantinham o casamento postiço na sociedade.

O Rei pegou Cleonice e saiu do país.

Casou onde lhe permitiam casar.

E mandou todo mundo pro inferno!

Cruel.

A sociedade assistiu o filho do casal nascer.

Atingido por um glaucoma congênito.

Teve gente que afirmou que o filho era doente.

Por ser fruto do pecado.

Eu era pequeno e ouvia essas conversas.

Fã do cantor de quem herdei o nome.

Cantor que reagiu às dores e maldades do mundo.

Cantando "Como é grande o meu amor por você!"

*Roberto Vieira, dando uma pequena ajuda para os amigos.






COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊ
Erasmo/Roberto



Eu tenho tanto pra lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você

E não há nada pra comparar
Para poder lhe explicar
Como é grande o meu amor por você

Nem mesmo o céu e as estrelas
Nem mesmo o mar e o infinito
Não é maior que meu amor nem mais bonito

Me desespero a procurar
Alguma forma de lhe falar
Como é grande o meu amor por você

Nunca se esqueça nenhum segundo
Que eu tenho o amor maior do mundo
Como é grande o meu amor por você

O TROPICÃO





E foi só um tropicão...
Mas o cara com a cara acertou a mão de outro cara
Que com cara de careta não quis nem saber
E o cara de camisa - ou camiseta?
A contenda fez romper...
Só deixou que a cachaça empestasse o botequim
Onde estava o menos ébrio que no bêbado deu fim
Que tamanha ignorância de um rapaz trabalhador
Que sem manha ou experiência um frontal ele amassou
Com um pesado angico-roxo que no bar era um balcão
E o homem que passava não tinha nem um papel
As passadas muito altas transportaram-no pro céu
Fez-se um mito do valente por cause de um tropicão
E foi só um tropicão...

OBSCURO OBJETO DESEJO INDIRETO




Faz algum tempo que eu vinha me perguntando por que parei de escrever. Não no sentido da palavra escrita, mas no modo mais objetivo das ideias. Enfim, preocupei-me muito mais com os poemas.

Agora outra pergunta: por que poemas? A resposta: não sei. Todo dia leio jornais, revistas, livros didáticos e ficções científicas. Somente às vezes procuro poesia, e quase sempre pela internet. Mas vamos investigar...

A leitura de contos e prosas faz com que a mensagem seja mais claramente entendida, desde que inserida no seu contexto e recheada com informação objetiva do assunto. É uma conversa por telefone, um pedido de ajuda de um mendigo. A poesia é surreal, libertadora, alucinógena, confusa e atraente. Difícil de ser entendida não por ser subjetiva, mas por ter objetivos destoantes até mesmo do próprio autor. Poesia é uma letra de Leminski musicada por Chico na voz de Raul. Será que é por isso a minha escolha?

Outro ponto: as regras gramaticais. Prosa é tudo certo, verbo concordando com predicado, sujeito com verbo e português com língua culta. O seu lema é não desrespeitar a última Flor do Lácio, desconhecida e obscura. Na poesia há liberdade total. São emes não postos nos verbos e falta de preposições nas frases que deixam tão bela esta forma literária. O não-saber-mas-sabendo, o desleixo, a simples vontade de expressar as interrogações são um jeito moleque de apaixonar pela poesia. Será esse descompromisso o meu fator optante?

Lembrei de outra diferença, talvez o principal peso da escolha: a rima. É claro que não infiro ao ão com ão (lembrei do CPM 22) e ao ê com ê (as mais belas duplas sertanejas...), mas de rima clara e escura, fraca e forte, sutil e escrachante, boa e má e rica e pobre. A rima nas aliterações, prosopopeias, metonímias, antíteses, pleonasmos, eufemismos e poesias. A rima nas prosas se torna cacofonias, zunzunzuns de boates ou tiros de metralhadoras, totalmente ineficaz e abominável. E como sou um fã incontestável do cordelismo e de uma boa roda de viola, acho que minha vida sem a rima seria uma rima sem vida, ou melhor, rima de conto.

Enfim... epa! Acabei de escrever em prosa! Oba!

Danilo Meiras

Quem te conhece não esquece jamais


Corri techo


Praticamente três semanas nas minas gerais


De norte a sul (ou Sul a Norte) literalmente


Começando por Guapé, Ilicínea


Boa Esperança, Campo Belo, Oliveira


Passando por Belo Horizonte


E rompendo em direção ao mar, ao menos, Almenara


Enquanto uns padiolam, outros ribuçam


Uns pousam, outros fazem a cama


O Sul é mais bonito, tem mais água


O Norte é mais alegre, tem mais farra


O Sul absorve a força política


O Norte pensa no coronelismo


O Sul dorme cedo


O Norte não tem limites


O Sul bebe mais cachaça


O Norte mais cerveja


Uma coisa em comum:


Ambos têm gente boa e hospitaleira, no frio ou no calor


Nisso, eu sigo jogando china em cima da galinhota...


Danilo Meiras