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Amos os humanos como animais


Amos os seres humanos,
quando a ternura deles
se assemelham com as dos animais.
A compaixão e a coragem com o próximo,
aceito apenas de forma animalesca.
Quando somos homens, na maioria das vezes,
sinto um refluxo estomacal.
Nada de mais, somos animais.


Nil Karamazov

Casa 678 A


Passaram-se os anos tão despercebidos,
que agora não me reconheço como antes.
Quando deixei de ser rebelde,revolucionário,
famoso pelas minhas músicas?
Ah! A quem vou enganar,(você meu filho ingênuo?),
nunca fui nada disso, mas quando é que deixei de sonhar com essas coisas?
Passaram-se os anos tão despercebidos,
que eu nem reparei que os sonhos se tornaram distante,
como aquela casa 678 A,
essa casa que posso visita-la, passar na porta a todo momento,
mas nunca mais entrar,
ela não me pertence,
os vizinho não me reconhecem,
já não são os mesmo,
como os meus sonhos!
Meu filho siga o seu caminho,
e não queira ser aquilo que eu não fui, por capricho da minha incompetência e/ou falta de tempo, apenas para agradar seu atrapalhado pai.
Seja, e nada mais!

Nil Karamázovi

Vida vida, morte ingrata!


Silencia o nada,
no instante menor da morte,
rápidamente diria: Vida ingrata!
Mas discordo de mim.
Qual seria o último esforço do neurônio
na menor fração do milonésimo segundo?
Vida ingrata!

Sabendo, ainda,
que o derradeiro neurônio discordaria de mim.

Nil Karamázov

Segue a via


Sai de casa

com os passos normais de um dia comum,

mas algo havia, neste dia, de anormal.

Carros não viam

e eu muito menos não via, com a ajuda incondicional da míopia,

movimento automotor na via que eu cruzava,

com passos normais de um dia comum.

Seria ironia,

claro que não, que bobagem essa a sua,

pois um sujeito acostumado com o movimento de carros,

pessoas e mais carros

estranha quando não há movimento algum

de pessoas, carros e mais pessoas.

No fim não era nada de anormal,

era nada mais que a luz vermelha de um sinal.


Nil Karamázovi

Noite saudosa


Tem noites que ressurgem em minha mente,
sem bater a porta de minha cachola,
vários conhecidos dos tempos de outrora.
Pessoas que não faço a mínima idéia por onde estejam,
se é que ainda estejam em algum lugar.
E assim, levado pela saudade,
E por uma preguiça no setor da imaginação,
acredito que nada mudou,
Que tudo está parado,
Que ninguém morreu,
Casou ou viveu.
É como se todos continuassem a fazerem a mesma coisa
que faziam quando os vi pela última vez.
Coisa vil e egoísta esse meu sentimento.

Quando acontece de encontrar com um desses alguns,
O senhor do tempo, sem demora,
Libera a areia da ampulheta
E em um minuto todos os anos soterrados em meus neurônios vêm à tona,
Maltratando sem piedade a minha saudosa lembrança.

Nos lugares que ainda ando falta um tanto de vocês.

Nil Karamázovi

Oração


A luz da vela, apesar de fraca,
Não escondia a vergonha da moça.
A sombra, por mais que tomasse conta de todo o singelo cômodo,
Não conseguia esconder as marcas de sangue da alma.
Cada qual, ali,
teve um motivo para enlouquecer.
Uma queria era família salvar, seus beijos foram em vão.
O outro, como os heróis de cobre nas praças,
Queria transpor um obstáculo, a fim de atingir algo maior
E melhor para humanidade...em vão, pois não fizeram estátua alguma!

Nesse quarto escuro com poucos móveis,
Antes da loucura total,
uma prostituta e um assassino resolveram rezar.

No final, quando a alucinação tomou conta de todo o cômodo,
Um fantasma bateu a porta,
Não se sabe, no entanto,se era uma vítima ou alguém da clientela.

Nil Karamázovi

Indiferença mata


Apenas os seres humanos param,
Com exceção dos que sofrem muito.
As árvores não pararam de crescer,
São anarquistas em relação as nossas vidas,
Nossas leis,
Nossas instituições sociais
E novelas.

Ora, um país para, no entanto sabe-se que as massas de ar
são de lugar nenhum por natureza,
Foragidas e alheias ao que ocorre no mundo.
Indiferentes não respeitam as Copas do Mundo,
Os feriados tão esperado, ou a festa de São João.
Chuvas torrenciais aconteceriam com ou sem futebol,
Mas apenas os que sofrem com a força d’água
perceberam os vestígios da chuva.



Nil Karamázovi

Cálice


Ora camarada que encara essa árvore
por de trás da terra,da grama e de uma podre madeira,
O que lhe intriga?
Seria a indiferença com os seus tolos problemas?
Enquanto morres de amores, ela cresce indiferente a tua melancolia,
A falta de dinheiro não derramou uma folha sequer ao chão.
Deixem que sirvam conhaque em teu crânio oco, assim saciaria a sede alheia,
Pois quase todas as pessoas são como esse arvoredo,
Indiferente a tua vida e tua morte,
E o que lhe resta é apenas o recipiente macabro que não foi devorado, ainda.
Não se deixe abraçar pela ilusão momentânea, os galhos não apontam para a tua cova,
Então se contente com a visita dos vermes aos seus imundos restos.
Alegria em ser adubo de árvores
cálices dos loucos
e por enquanto, nada além.


Nil Karamázovi

Homenagem em forma de plágio


A polícia ronda no frio dessa noite,
O velho a olha desconfiado,
Como se estivesse vendo um cachorro bravo,
Ou um dentista, igual disse Sampaio.
Matuta, enquanto anda com o passo agora mais firme,
No ditado e canção: Assim Assado.
Acelera e cai na rua, foi só um trupicão,
E por sorte não atrapalhou o trânsito,
Pois nas horas mortas dessas esquinas não viu nenhum olhar,
Apenas o carro da polícia e assim, ainda não assado, filosofa: Para que precisa?
Chega em casa,
Sujo, e coitado, não é beijado por uma boca de paixão,
Não por que sua esposa seja danada e jararaca,
Mas essa já chorou demais sem razão e se foi, inesquecível,
Deixando o velho, todo dia a noite, encontrando com a solidão.


Nil Karamázovi

Fanatismo



“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto...”



Se fosse menos que saudade,


Ou se em parte já estivesse esquecido,


O que tem mais de um ano não pareceria ter ocorrido ontem.


Coração trabalhador fordista


avisa em cada pulsação aquilo que não existe mais.


Se ao menos tivesse alguma certeza,


Mas o que me resta é quase razão nenhuma em tudo que penso e falo.


Não passo de um tolo com saudade.

Uma cerveja, uma cachaça e um pedaço de frango frito, por favor!


Eis o banquete apreciado ao fim do expediente,
Num momento mágico e simples, ou melhor apenas simples,
antes de retornar ao lar.
Direi que ali ele, aparentemente, tem a voz ativa, pois outros como ele o escuta,
E palpitam sobre os assuntos dialogados;
Salário, dificuldades na vida e no emprego, amor a Deus (senhor maior, é católico?),
Futebol,mas é claro não se pode ficar ali sem comentar algo sobre o esporte das multidões.
Assassinatos em São Paulo, lugar distante, coisas exclusivas da TV.
Assassinato na rua próxima de casa, é o medo que bate a porta.
Aposentadoria, hoje não tardia, o desejo de morar no interior.
A mulher companheira é lembrada,
Mas mencionada rapidamente.
O filho distante é lamentado, brigas e rebeldia, coisa de adolescente.
Toda essa novela real finda junto com
Uma cerveja, uma cachaça e um pedaço de frango frito,
Que aliás,” quanto deu aqui moço?”
“R$ 5,80!”
“Tome 6 e fique com o troco."
Nada de ironia, ou menosprezo,em relação ao troco,
Apenas simplicidade, daqueles que pouco tem a oferecer, apenas isso.
E foi embora.


Nil Karamázovi

Dias frios


É chuva, mas é claro que aguardar o surgimento do sol é loucura,

Pois nesses dias cinzas aproveito e finjo ser triste.

Canto músicas de Bob Dylan,

Ou as de um Lennon angustiado,

Tudo parece ser mais silencioso, como se tivessem descansando.

Nesse frio é como o periodo pacífico em que se recolhem os mortos de guerra,

Por enquanto é paz,

Mas só por enquanto.

Leio rápido alguns contos falados em uma taverna.

Atmosfera hostil, necrofilia sem intenção

E cheiro de álcool no ar noturno.

Nessa mesa tudo se ouve e ninguém, graças ao vinho, se cala,

Então viva esses poucos dias frios.



Nil Karamázovi

Música dos excluídos



Do alto das vassouras aplaudiram a nova celebridade.

No entanto, não era bonita.

Na verdade, para muitos, não era nada,

Era apenas um dos vários invisíveis

que morrem sem que o pai/pátria os conhecessem.

Pitoresco, hilário,

E nada belo muito menos universitário.

Hoje precisa ser graduado,

até no ritmo dos bêbados.


Pós-pó


Por fim veio o silêncio mais profundo


que a casa de sete palmos, embaixo da terra.


Era um sonho, delírio de moribundo,


Mais aterrorizante que as últimas Quimeras.



Medo do silêncio e de ser apenas um apanhado, perfeito,


De músculos e nervos num objetivo em comum.


Medo do nunca mais.


A minha juventude que nada entende, apenas teme o incerto,


E assim se serve de doutrinas religiosas,


Folhetos de milagres


E cartas de além vida,


tal como sirvo o almoço.


Cada dia algo me convém,


Mas o temor do desaparecimento total não me larga,


Por enquanto.


Eu morto, decomposto e nada mais, lá,


E todos os outros amigos vivendo, cá.


Solidão pior que essa, possivelmente, não há.





Nil Karamázovi


Canto a cidade B


Cidade B que nada pode.


Apesar da fama,


Você engana a todos os simples mortais.


Não cantam em ti,


Cantam por ti, e nada mais.


Rastejar em teus becos,


Pedir doses em teus vis recantos,


Comer o resto da janta, e nada mais.


Somos mais que nada mais.





Vou procurar os Sampaios malditos.


Vamos todos vasculharem as memórias dos loucos,


Investigaremos os bêbados malditos,


e nada mais.




Nil Karamázovi



Como fosse um baião de Dominguinhos


Quando uma criança que perambula pela praia,
Agradece a uma pessoa que lhe dá uma lata de cerveja vazia,
Deve ter no mínimo alguma coisa errada,
Nessa praia e no mundo todo.

“Tudo é tão desigual”
Já cantaram, e ainda cantam, em coro Gilberto Gil e os Paralamas do Sucesso.
Em vão?
Nunca se canta algo assim em vão.

Enquanto não houver a clara distinção entre trabalho e escravidão,
Sempre se ouvirá o canto alegre e triste,
Como um baião de Dominguinhos,
Da novidade que seria um sonho.


Nil Karamázovi

Meu pobre rei

Com carinho
Percorri vastos caminhos.
Caminhei
Sendo vassalo de um pobre rei.

Tu que mandas em mim,
Tu que reinas sobre mim,
Onde piso, onde ando,
Onde banho , sou humano?
Não sei, pequei meu dono.


Nil Karamázovi

CRISTALIZAR


Morre o ser e nasce o pão...


Quais os dias da semana é sexta-feira da paixão?

O pecado nos envolve em forma de viver

Ceando o chocolate - a arte doce de esquecer


A Paixão de Cristo ressurgida para a dor

Pra onde foi aquele homem que ia ser o salvador?


Morre o homem e fica o mito resplandecendo a luz

Peço-O:

Não me abandone feito um filho na cruz!


Rogo a Deus meus pensamentos maus em forma de oração

Já que o homem sem tormento nos tingiu de traição

Deu-nos todos os sentidos pra nenhum poder usar


Deu o dom pecaminoso em troca da religião

Pois usaram sua coragem pra lançar na contramão

Desse povo que de um livro fez a fé cristalizar


Danilo Meiras e Danilo Sousa

Laio e leis, decisões.(Deve haver alguma coisa que ainda te emocione)











"Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora." (Calabar - Chico Buarque e Ruy Guerra).


A mão da avó é a mesma da lei,
embora a lei nunca chore,
mas os pais e as mães sim,
menos o rei Laio que se assemelha com as leis modernas.
É pena que nem todos tem a força e o amor de Carlitos,
que brinca e briga com o punho e o cacetete da lei.
O amor, para Carlitos, é o que há de maior,
pena que para muitos a demagogia, a hipocrisia,
e a lei estão acima de tudo.
Com passos largos a lei se transforma em Laio,
e não é de se espantar que tantos Édipos surgem a cada momento,
não o complexo, mas o involuntário parricida.


Nil Karamázovi

Sala 101 carioca


Escapas de mim,
Ouro negro
Que escorre nas profundezas,
Ai meu coração sentimental não agüenta.
Choro por ti,
Riqueza do mundo moderno
Que causa guerras,
Golpes militares,
Ataques terroristas.
Antes era só minha
E lembra como desfrutava de tua beleza?
Não aceito que lhe trate como um vadia da zona boemia.
Fique por aqui, nessas terras praias maravilhosas,
Abençoadas por um Cristo só nosso,
Que protesta e que pede de braços aberto ao pai todo poderoso o seu retorno feliz.



Nil Karamázovi